A viagem de Nicolina 

12 de fevereiro de 2026. 

Hoje minha madrasta “viajou”, como diria meu pai.

Dormindo, como idealizo que morrem os bons. 

Acordou, tomou um suco, deitou de novo, e não acordou mais. 

Fez a passagem tranquila, como viveu os últimos anos. Felizmente. Outro privilégio.

95 anos. Teve filhos biológicos, filhos por afinidade, netos por todos os lados. Chegou a ver os bisnetos. Uma vida longa.

Desses 95 anos, foram 40 anos com meu pai. 40 anos. Minha mãe partiu muito cedo, e quatro anos depois, ela chegou em nossa vida.

Ajudou a organizar a nossa casa, desestruturada pela perda de alguém tão importante; foi fazendo as coisas do seu jeito e se tornou a companheira do meu pai por quarenta anos.

Depois que o pai “viajou”, ela voltou para sua cidade,  no interior de Minas Gerais. Sua origem, além de filhos e netos.

Moro fora da cidade onde nasci já há quase quarenta anos. Constituí família, fiz trajetória profissional, tive e tenho uma vida em um novo núcleo.

Sempre fui um visitante ocasional. Vivemos dez anos juntos, na mesma casa, e depois eu ganhei o mundo.

Nos bons anos, voltava lá três, quatro vezes por ano, e nessa época de viajar sozinho, seja a lazer ou seja a trabalho, sempre fiquei com eles.

Com minha esposa, ficava também. Com as filhas, já começou a ficar difícil, mas sempre íamos lá, mesmo não ficando mais hospedados com eles.

O tempo vai  nos dando tolerância, sabedoria, inteligência emocional e melhor compreensão das coisas.

Sendo visitante ocasional, minha estada era festiva. 

Bolinhos de chuva”, pizza de tabuleiro, café da manhã com manteiga em barra salgada, queijo minas,  – como poderia faltar? – frutas e doces. E aquele feijão mineiro.

Acordar na hora que quisesse, ler os jornais sem pressa, ar condicionado à vontade, ver televisão o dia inteiro, passear – vida irreal, mas um tempo de qualidade.

Eu não pedia, mas ela ajeitava minhas camisas faltando botões, ajustava bainhas desgastadas e me recomendava descartar o que estava desbotado ou velho demais.

A vida foi parcimoniosa comigo, em relação a certas comodidades, e eu sentia uma felicidade e alegria muito grande nessas interações, generosas e repletas de atenção.

Ela respeitava minha privacidade e minhas escolhas, mas quando “acionada”, tinha sempre algo objetivo a dizer.

A minha situação com o passar dos anos foi ficando melhor, e eu adorava sair com eles para um almoço fora ou um passeio pela cidade. Pai era mais arredio, mas ela sabia desfrutar com alegria.

Ela se vestia com elegância, botava um bom perfume e estava pronta. 

Mesmo no terrível verão carioca, eu botava uma calça comprida, pois não iria sair de bermuda e chinelo com uma senhora tão distinta…

Eu queria presentear, e ela me ajudava – eu dava o que achava que seria bom, e ela sempre demonstrava muita alegria. 

Hoje acho que não pelos objetos –  pois devo ter dado muita coisa que embora pudesse até ter qualidade, não era realmente útil ou de bom gosto – mas pela intenção e ação, o que creio que realmente a fazia feliz.

Interagíamos bem, mas ela generosamente sempre dava um jeito de conceder mais tempo para que eu e o pai ficássemos conversando ou simplesmente assistindo televisão juntos.

Qualquer coisa que eu falasse, mesmo que despretensiosamente, no outro dia estava disponível. Não raro, em proporções exageradas…

Eram quinze, vinte dias por ano, com muita mortadela frita, doce de mamão, refrigerante à vontade e caixas de bombom na geladeira.

Filho distante, visitante ocasional, eram dias de muita alegria, leveza e felicidade.

Não sei se à época ainda não fazia mal para ela, mas comíamos bombons juntos.

Ela pegava um, dois, para me estimular a comer, conversava um pouco e ia lá para dentro, me deixando na sala com o pai e a caixa de bombons.

Comprei uma caixa de bombons hoje. 

Sentei na sala, botei um vídeo na televisão com uma música celestial, e comi os chocolates. 

Devagar, triste sim, mas com uma lembrança carinhosa enorme no coração.

Creio na continuidade da vida em outro plano, e embora julgue que ainda é cedo para ela, cada vez mais sinto os que já foram mais perto, visitando a gente.

E ela estava, nos últimos anos, com uma sensibilidade já não natural. 

Eu tinha um dia ruim na minha vida, e minhas meias-irmãs entravam em contato, dizendo que mãe estava agoniada, e queria falar comigo…

Liberta e despertada, tenho certeza que será mais uma pessoa destinando amor, cuidado e atenção na nossa direção.

Nos últimos anos, com muita dificuldade, pude estar com ela algumas vezes em Minas Gerais.

A visão, o corpo, já davam sinais claros dos 95 anos, mas o discernimento estava todo lá.

As histórias, – por vezes, engraçadas, por vezes, constrangedoras… – a fala tranquila, as lembranças felizes. 

O almoço farto, organizado pelas filhas, que deram todo o amparo e suporte nesses últimos anos. Mais um privilégio.

Vejo fotos desses dias, e me surpreendo com uma delas onde estou ajoelhado ao lado dela, enquanto ela abraça minha cabeça. Pareço uma criança.

Minha filha me disse isso.

Impossível não pensar que quando criança de fato, deixei de fazer isso tantas vezes, quando ambos estávamos lá, no mesmo espaço.

Que bom que ainda houve oportunidade de mais esse tempo de qualidade.

Em uma dessas estadas em Minas, assistimos um filme japonês, “O menino e a garça“.

Em determinado momento, o menino fala uma frase, que me “quebrou no meio“.

Se referindo a Natsuko, a nova esposa do pai dele, ele diz: “ela não é minha mãe, mas é a mulher que meu pai ama“.

E com o tempo, o menino aprende a amar Natsuko.

Obrigado por tudo, Nicolina.

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Encontros com o Mestre – Caminhos para a espiritualidade

 

Olhava o rio do alto do morro.

Já tinha rido em outros tempos, olhando aquele rio – dera a ele o nome de dois amigos, pois o rio se bifurcava, e um dos trajetos dava uma volta enorme, e depois se juntava ao original, voltando a seguir o mesmo caminho.

É, um dos amigos “homenageados” não era conhecido por sua extrema inteligência – tinha um coração de ouro, mas não era dos mais espertos.

Mas agora, não sentia vontade de rir.

Mas era grato pela tranquilidade daquele momento.

Foi quando escutou aquela voz, conhecida.

Um amigo antigo, que já estava, digamos, em um plano mais próximo de Deus.

Ele sempre vinha, de vez em quando, para conversar.

Bonito, aqui. A primeira vez já faz muitos anos, não é?

Respondeu que sim.

O amigo conhecia os pensamentos mais íntimos, mas sempre fazia a cortesia de perguntar – penso que ele julgava que a verbalização ajudava a entender melhor as ideias que eventualmente o afligiam.

Em que você está pensando?”

Em como a gente sofre, nessa caminhada… Em como, em certos momentos, é difícil manter a fé, a confiança na justiça, a certeza no tal futuro melhor, a força para se manter caminhando…

É, eu entendo. Mas a sua dor lhe parece tão grande porque ela é sua. Não estou querendo minimizar, apenas tentando te dar perspectiva.

É mesmo?

Sim… o filho de Deus, Ele em pessoa, caiu três vezes somente a caminho da cruz, se dirigindo para uma punição pra lá de injusta. Não é de se surpreender que nós caíamos mais vezes.

Que seja… mas certos esforços que fazemos, por vezes, além de infrutíferos, acabaram parecendo desnecessários e principalmente, sem o reconhecimento devido.

Não quero alimentar uma ilusão em você que o que direi seja fácil, mas devemos fazer as coisas porque acreditamos que são corretas. Se doar, é fazer algo que dificulta a sua vida. Se não, é apenas encaixar atividades.

Ficaram em silêncio, olhando aquele cenário.

Fim de tarde, sol se escondendo mais cedo por causa da altura dos morros, um vento reconfortante.

Eu sempre idealizei que em alguns lugares o vento toca música quando passa pelas árvores. Existem lugares assim?

Há muitas moradas na casa do Pai – com maravilhas que sequer conseguimos idealizar. Coisas belas e outros regalos que eu nem posso imaginar, na plenitude. Mas tanto aqui como lá, a beleza mais pujante é encontrada nas pessoas.

Mas esse vento, quase nos cura, parece até um remédio… existem coisas assim?

Não há limite para os recursos de Deus; há limites para a nossa capacidade – ou merecimento – para desfrutá-los.

Merecimento é um conceito complicado… como um bom humano imperfeito, faço meu melhor, e muitas vezes achei que merecia mais do que tive. Vejo cada traste por aí com aspectos da vida tão melhores do que o meu…

Deus sabe do que você precisa antes que você saiba. Agradeça por todas as vezes que Ele te curou, mas agradeça dobrado pelas vezes que Ele fez com que você aprendesse a não deixar se machucar de novo.

É verdade. Saber para onde não voltar, de certa forma, já é andar para a frente.

E, com a alma mais leve, ele viu o sol se esconder por trás das montanhas.

 

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03 04 2023 – 18 anos da Gabriela

Minha filha caçula, você está fazendo dezoito anos.

Como sempre sonhei, é universitária, graças a Deus. E federal.

Você tem coisas que eu não tive – e fico muito feliz por você, em relação a parte boa dessa situação.

Tempos outros, alegrias outras, dificuldades outras – mas você tem se saído muito bem.

Forte, resiliente, determinada, focada.

Bem mais virtuosa do que eu, mas é como deve ser: filhos melhores do que os pais.

A meu favor, somente o tempo – o tempo nos dá vantagens, pela construção de conceitos e opiniões baseadas na vivência; nem sempre agradável, mas sempre educativa.

Mas você cada vez mais será alguém melhor do que eu – como tem que ser.

Aos dezoito anos eu já pensava em ter filhos. Só pensava. Sabia que não deveria ter.

Totalmente desprovido de condições, teria sido uma situação de muita provação. Trazendo experiências para o bem e para o mal.

Para alguns, dá certo; nunca sem dificuldades, mas realmente dá certo.

Para outros, um desastre que desestabiliza a vida de todos – pra cima e para baixo.

Mas sempre se ajeitam – a falta da opção muitas vezes já aponta a opção a ser seguida.

Mas eu não tive filhos aos dezoito. Fiquei somente no sonho, com os pés fortemente fincados no chão.

E “meu bebê”, você que hoje faz dezoito anos, chegou quando eu já tinha boa parte do que eu almejava na vida. Na verdade, em certos aspectos, até mais do que eu esperava.

Alguns pilares da experiência adulta tinham bons alicerces, embora a construção dessa coisa chamada vida não se encerra nunca, durante nossa passagem.

Quebra, conserta, repara, remenda, troca… vamos seguindo – dia após dia do nosso tempo e missão.

E “meu bebê”, você chegou quando eu já começava a ter a percepção que estava mais para a segunda metade do que para a primeira…

E trouxe alegria e ânimo novo, me dando perspectiva sem me deixar esquecer a realidade.

E vi você crescer, falar, caminhar, estudar, dançar, estudar e muitos outros “-ar” da vida; nós viajamos, nos tratamos, nos divertimos, nos estressamos, rimos muito, choramos eventualmente, e temos trilhado juntos essa caminhada por vezes tão imprevisível chamada vida.

Já falei para você que conto o tempo pelas minhas filhas – não vi meu pai envelhecer, idem para minhas irmãs, sobrinhos e amigos. A televisão do tempo para mim sempre só teve um canal – minhas filhas.

Nem a mim, eu via. Às vezes, a vida me sacode, me lembrando que aquele menino magrelo, serelepe e de cabelos pretinhos, há muito tempo deu lugar para esse adulto com sobrepreso, dores nas juntas e cabelos grisalhos.

E a gente avalia o quanto da vida deu certo, e sonhamos com os filmes de ficção onde os protagonistas tem chance de voltar e fazer somente as escolhas certas.

Mas isso não é possível – não se pode fazer um novo começo, embora sempre se possa traçar um novo fim, já dizia Chico Xavier.

Mas, mesmo olhando os caminhos difíceis que se fez na vida, ao mirar vocês, filhas, vem sempre um pensamento de que tudo valeu a pena.

Na vida, algumas coisas faríamos igualzinho de novo; outras, não. Exceções a se contar em uma das mãos, aqueles que não tem nenhum arrependimento na vida.

Pouca sorte de vocês, já que talvez eu nem seja um bom pai; mas que eu sempre as quis; mesmo eu, um libriano vacilante, nunca tive dúvida.

E hoje, “meu bebê”, você faz dezoito anos. 

Ainda tenho alguns anos, hoje rezando basicamente por uma boa saúde e determinação para poder mantê-la, mas a frase “meu trabalho está feito” vive martelando minha cabeça…

Ainda posso ser útil para vocês, mas, junto com sua mãe, alimentei, cuidei, eduquei, orientei, tratei e outros tantos “-ei” da vida, por todos esses anos.

Agora, vocês são maiores, vacinadas, universitárias, inteligentes e cada vez mais sábias e equilibradas do que eu – o que nem é missão tão difícil assim…

E assim, minha caçula, você chega aos dezoito anos.

A expressão corriqueira é “um ponto de virada” – mas eu sou “de exatas”, e a parábola da sua vida ainda está bem no começo da subida…

Mas, “meu bebê”, cada vez mais novas experiências virão, e saiba experimentá-las com coragem, temperança e bom senso.

Das mil coisas que disse para você, pegue aquela meia dúzia onde eu tenho razão, e separe aquelas três que servem para sua vida, e nunca as esqueça.

Mas, se você tiver que lembrar somente uma coisa desse montão que eu falei ao longo desses anos todos, lembre dessa: “Amo você, minha filha”.

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Encontros com o Mestre – Ser racional e emotivo é para os grandes

Ele conhecia aquele lugar.

Mas não daquele jeito.

Não naquele tempo.

Mestre, não sei se é uma boa ideia…

Fique tranquilo – o oposto de ser emotivo não é ser racional.

Você pode muito bem se emocionar, sem perder a clareza dos pensamentos.

Ato contínuo, as lágrimas desceram. Copiosas.

Aquela mulher olhava o menino com o carinho que só o amor consegue por em um olhar.

Olhar vivaz, nariz e lábios finos.

O menino dormia tranquilo.

Tudo tem seu tempo determinado”, disse o Mestre.

O menino dorme, e não tem noção de que ela o olha.

O amor está com ela, e ele não sabia disso. Sempre estará.

Ontem, hoje e sempre.

Ainda hoje, ela olha.

Ele saber ou não, não muda isso.

É assim com seus valores.

Eles estão em você.

Algumas pessoas vem, outras não.

Simples assim.”

Não há que se esperar reconhecimento, não é, Mestre?

Viu? Eu falei que dá para conciliar emoção com razão.

Ser racional e emotivo é para os grandes.”

E antes que ele tivesse qualquer arroubo de presunção…

Não, você não chegou lá…

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Encontros com o mestre – Isso também existe.

Depois de um dia agitado, ele ficou até aliviado pelo mestre tê-lo levado em um lugar tão tranquilo.

Sobre os locais diferentes, já tinha passado da fase de se assustar, mas nunca deixou de se surpreender.

Era um sistema de três estrelas – incrível de olhar, porém mais deslumbrante ainda de pensar no equilíbrio da órbita daqueles três “sóis”.

Dá dor de cabeça só de pensar nesse equilíbrio, não é? Mas isso existe.

 

Algum tempo depois, estavam em frente a um castelo, de muita pompa e beleza.

Se aproximaram de um grupo de jovens, risos com não mais do que quinze anos.

Um deles exibia, de forma muito pomposa, uma cédula para os outros.

Além da foto do castelo que reluzia ao fundo, chamava atenção o valor zero estampado na cédula.

“Pagam para comprar essa cédula que nada vale. Mas isso existe.”

 

De repente, em outro lugar. Tudo branco.

“Gosto daqui, disse o mestre.”

“Ei, eu conheço essa bandeira… laranja, branco e verde… mas, neve?”

“Impressionante, não é?

Você pensaria em muitas coisas neste país, mas isso… não.

Mas isso existe.”

 

Então, chegaram em uma praça.

Não era exatamente uma praça, na verdade.

Parecia ser a área externa de uma igreja.

Uma igreja nos altos.

Dois idosos, sentados em bancos de cimento.

Ele, com as mãos sobre as pernas, uma expressão de tranquilidade no rosto.

Ela, comendo um cachorro quente, com um sorriso feliz.

Então, o mestre tocou no seu ombro – “sim, isso também existe.

A grandeza de Deus se revela de muitas formas.

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