Crônicas da vida – A primeira frase de Gabriela

Estávamos indo para uma consulta regular com a pediatra das crianças, mas antes paramos para pegar o resultado de uns exames da Glória. Sendo uma dessas tardes muito quentes do verão paraense, deixei o ar condicionado do carro ligado com minha esposa e as meninas, enquanto eu desci sozinho, para pegar o resultado. Quando voltei, minha esposa empolgada me contou que minha Gabizita formulou sua primeira frase – “Cadê papai ?”. Pai babão, fiquei todo alegre com a fluência verborrágica de minha caçulinha… Que Deus permita que eu e minha esposa, minha companheira e base de nossa bela famí­lia, sempre estejamos ao alcance de nossas filhas, em todas as necessidades que elas possam ter, e mesmo naquelas inevitáveis situações de vida onde nem os pais podem prover solução, que possamos sempre prover alento, apoio e compreensão. “Papai está aqui, minha caçulita…”

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Crônicas da vida – Dia dos Pais de 2006

Tenho três filhas. Por enquanto, só. Durante o ano inteiro são os trabalhos da escola, leva e traz do balé, ensaio do espetáculo, passeios na praça, idas ao shopping, milk shake no aeroporto. Mas no dia dos pais eu tenho um retorno que vem se somar a convivência diária com elas: meus presentes. Tudo bem que quem banca ainda somos eu e minha esposa, mas já estamos plantando o hábito de presentear os ascendentes. Já me vejo em alguns anos, todas formadas e com bons empregos vindo a nossa casa e deixando embalados uma filmadora, um home theather e um notebook… Mas por enquanto, como disse, quem banca somos nós. E fomos, eu e minha esposa numa grande loja de departamentos de Belém, comprar umas roupas. O vendedor nos indicou uma seção onde tinha “tamanhos especiais”. Pensei – “tamanho mastodonte, tamanho mamute…”. Chegamos lá e minha esposa pegou uma bermuda “M”. Incrédulo, fui ao provador. Coube. Compramos umas quatro peças. Afinal, você imagina há quantos anos não visto uma roupa “M” ?

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Crônicas da vida – Os vendedores e o avanço da tecnologia

Eu e minha esposa fomos almoçar no shopping. Passamos em frente ao stand de vendas de uma marca de artefatos para exercí­cio doméstico. Temos em nossa casa uma esteira elétrica, que para minha esposa sempre foi extremamente útil para seus exercí­cios na segurança de nosso lar. Pra mim, foi o cabide mais caro que já comprei… Mas voltando ao stand, fomos conversar com o vendedor. A esteira atual que ele ofereceu faz tudo, é inteligente, programável, só falta fritar ovo. Quando minha esposa ponderou sobre fazermos uma negociação envolvendo a velha, que afinal ainda funciona bem, ele foi logo dizendo “vai ser difí­cil, essa sua não tem amortecedor, a inclinação dela não zera, o painel só tem as funções básicas, etc, etc.etc.”. Impressionante como a esteira que era exatamente o que minha famí­lia precisava, em quatro anos já não serve nem como moeda de troca. E ainda descobri, depois que quatro anos, que ela “estoura” meu joelho…

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Crônicas da vida – O poço e a paciência

            Ele estava numa casa, e era intensa a agitação em torno dele. Era algum tipo de reunião, com muitas pessoas chegando a todo momento. Muitos deles eram seus conhecidos, embora suas feições não fossem exatamente da mesma forma que ele estava habituado a vê-los. 

            Embora houvesse um clima de alegria, ele via nas cores das pessoas que nem toda aquela alegria era verdadeira. Muitos estavam envolvidos por problemas, mas aproveitavam aquele momento de relaxamento para tentar espairecer. Tentavam passar para os outros uma aura de realização e sucesso. 

            Um amigo dele, acompanhado da esposa dele, que era ela embora não fosse, saiu preocupado buscando a mãe, que era esperada mas não aparecia. Saiu apressado, esbaforido, nervoso. Assim que dobrou a esquina ela surgiu pela sala. Por vezes, quem mais procuramos está na nossa frente e não conseguimos ver. 

            Ele estava numa sala pequena, tipo um daqueles “quarto de bagulhos”, repleto de coisas, e uma delas era um pequeno estandarte, repleto de uns símbolos estranhos, algumas palavras em línguas estrangeiras e uns desenhos de figuras aladas. Achando bonito, ficou manuseando, embora não entendesse o que aquela pequena flâmula poderia querer dizer. 

            Logo em seguida, praticamente todos na casa, muito bem arrumados e perfumados, se aprontavam pra sair, e ele notou que estavam deixando pra trás um jovem, com evidente sinais de retardamento mental. Ele ficou confuso, meio atordoado, com aquela atitude coletiva. Ele estava ali se imaginando um convidado como os outros, mas viu que não poderia abandonar o local, deixando o rapaz sozinho. 

            Um amigo ficou com ele, mas a revolta tomou o seu peito, pela atitude desumana dos outros convidados. Como podiam fazer isso? Ele devia ser parente de alguém, afinal não apareceu ali do nada! Mas todos saíram, perfumados e alinhados, para se divertir. Ninguém se importava com quem deixou pra trás. 

            Enquanto ele ruminava essa raiva, outra pessoa apareceu. Não sabia de onde veio nem quem era, mas era mais um que não parecia ser quem era. Era mais jovem que ele, e ele o convidou a ir aos fundos da casa. E foram. 

            O outro disse “estou aqui para te mostrar o que você não entendeu, já que ainda parece ser cedo para que você consiga ver o que você olha”. O outro o levou até um poço e deu a ele uma cacimba e disse que era para ele tirar um pouco d’água. Ele o olhava enviesado, ainda ruminando a raiva, mas o outro insistiu “tire”. 

            E ele o fez. “Agora jogue no chão”. E ele o fez. “Quando você tirou, você acha que a água do poço poderia acabar? Claro que não, ela se refaz. Assim deve ser sua paciência. Use-a a vontade, e ela sempre estará num nível compatível com suas necessidades.” 

            “E quando você jogou no chão, você acha que ela se perdeu? Claro que não, ela foi absorvida e vai ser útil para alguém. Tanto o exercício da paciência pode enriquecer sua própria fonte, como servir para gerar novos focos dela em outros poços, hoje aparentemente secos.” 

            E sem dar nomes, o outro foi discorrendo sobre os problemas daqueles que saíram ricamente vestidos. Coisas inimagináveis, guardadas no seio da privacidade. Experiências difíceis, mas úteis ao crescimento. O outro disse “A vida é um aprendizado. Círculos paralelos no tempo. A sombra de um provoca consequências no outro. Recebemos o que fizemos, o que é justo. E não esqueça: quando sentir a sede que vem da injustiça, use o poço.” 

            Dito isto, o outro foi embora. Enquanto se afastava, ele ficou olhando, e teve a impressão de que algo estava mudando. Os cabelos do outro embranqueceram. A mão esquerda tremia levemente. Andava arrastado, usando sapatos baratos. Quilos adicionais se juntaram a cintura antes esguia. Puxa, agora parecia tanto com o pai dele…

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Crônicas da vida – Para a minha filha que vai nascer

Nosso presidente é Luis Inácio Lula da Silva, nossa moeda é o real, um dólar está valendo 2,70 reais, o Santos é o campeão brasileiro de futebol, papai está com 38 anos, pesa 115 quilos, tem diagnóstico de diabetes tipo II já confirmado, sem tomar os devidos cuidados sobre isso. 

Mamãe tem 32 anos, suas irmãs, Glória e Amanda, tem 7 e 4 respectivamente. Sua mãe é a grávida mais linda do mundo, embora ela não acredite nisso. Hoje é um dia típico de inverno da reunião norte, onde moramos hoje, em Belém. Chuva intermitente ao longo de todo o dia. Sua irmã Amanda acabou de entrar aqui pedindo cinqüenta reais, pois a avó vai levá-las ao McDonald, para comer um McLanche. Quem dera eu tivesse: dei vinte e fiquei sem um tostão. Dureza… Mas isso passa… 

Escrevo isso num computador Pentium IV 2.8, com 256 MB de memória e 40 GB de disco rígido, um disco rígido de 7200 rpm. Processador de texto Word 2000. Temos uma conexão Velox banda larga de 256 Kbp/s. Não sei se você vai gostar ou se interessar por informática, mas escrevo estas coisas para depois ver, ao longo do tempo, como as coisas evoluem… 

Hoje é dia 12 de março de 2005. Se o seu pediatra, o Dr. Allan Rendeiro, não tiver errado nas contas, daqui a um mês você estará nascendo. Sua mãe acha que não dá, que vai ser antes, mas a desde a semana passada, estamos monitorando, consulta toda semana e ultra-som com Doppler a cada duas semanas. Nada de surpresas é aceitável quando estamos tratando do nascimento de um filho nosso. 

As coisas estão diferentes nesta gestação, minha filha. Estamos mais relaxados, no sentido positivo. As vezes me culpo por isso, mas lembro que quando sua mãe estava grávida da sua irmã Amanda nós tínhamos passados por uma experiência muito difícil, que foi a perda de um bebê. Sua mãe abortou espontaneamente com pouco mais de dez semanas. Foi uma coisa muito difícil, filha. 

Agora não. Estamos mais tranqüilos, em todos os sentidos. Você já vai nascer na sua casa, que no momento ainda está em construção (e parece que ainda ficará assim por mais algum tempo…), mas já há de te prover um bom conforto e estrutura. Quando sua irmã nasceu, morávamos num apartamento na Avenida Senador Lemos, que era nosso, mas era pequeno, e nem tinha garagem. 

Quando eu e sua mãe casamos (nós completamos cinco anos de casados no dia 03 de março próximo passado), sua irmã Glória era pouco mais que um bebê, não tinha nem três anos completos, e nem colchões e travesseiros tínhamos para abrigar completamente nossa nova família que se formava. Uma noite, Glorinha rolou por baixo da cama e sumiu. Sua mãe quase enlouqueceu… 

Com você, não. Seu berço, que foi da Amandinha (mas está em excelente estado, coisa boa…) já está arrumado há duas semanas, sua mãe mandou ajeitar umas portas aqui em casa para que você possa descansar em silêncio (Glórica é quieta, mas Amanda é “fogo na jaca…”), temos boa parte do seu enxoval comprado. Trouxemos coisas até de Petrópolis… 

Seu nome, minha filhinha, ainda está em aberto. Alguns nomes sua mãe não gosta, outros eu, estamos convergindo para um consenso, mas nem vou escrever, pois depois a gente muda… O importante, filhota, é que amamos você e estamos nos estruturando, nossa família e nossa casa, para recebê-la com tudo que você merece. 

Por um ligeiro empurrãozinho da sua mãe, acabamos de comprar um carro novo. Nosso primeiro “zero”. Um Fiat Siena Fire, um bom carro. O carro que tínhamos antes, um Volkswagen Logus (que eu carinhosamente chamava de “Azulino”) era um bom carro, mas envelheceu. Também, até tijolo ele carregou… 

Você pouco precisará sair de casa nos primeiros dias, mas se tiver que sair, irá no conforto que merece. Sua mãe “forçou” a compra deste carro por sua causa, suas irmãs e eu apenas desfrutaremos, mas este carro foi comprado principalmente por sua causa. Você está podendo, hein, filha !?! Quando você tiver três anos, teremos acabado de pagá-lo… 

Sua prima Vitória andou passando uns dias aqui em casa, pois ela levou uma queda muito feia lá no interior onde eles moram, e ela veio para cá para fazer uns exames e ficar em observação. Fazia tempo que eu não ficava perto de um bebê. Ela tem dez meses no momento que escrevo isso. O “meu bebê” era sua irmã Amanda, já uma bela menina de mais de quatro anos. Tão grande e bonita, como seguramente você vai ser, que quando tive que carregá-la no colo em Brasília, fazendo uma conexão já tarde da noite quando voltávamos do Rio, quase que eu boto meus bofes pra fora… 

Pois é, a presença de um bebê me fez sentir mais vontade ainda do seu pronto nascimento. Calma, não se apresse, falta um mês… Vontade de  deixar você dormir em cima da minha barriga (está maior ainda do que na época da sua irmã…), observar que você está reconhecendo minha voz, sentindo você apertar o meu dedo com sua mãozinha pequena, todas estas coisas de bebê… 

Depois, começar a ensinar a bater palminha, o que é cabeça, joelho e pé, assistir junto trinta vezes em trinta dias o dvd da Princesa Aurora (na época da Glória, era fita de vídeo cassete, a tecnologia está andando muito rápido…), e coisas assim. Seu pai é um homem meio rude, muitas vezes grosso, mas vou acabar ficando bom nesse negócio de criar menina… 

Aí você vai crescer, e vai pra escola junto com suas irmãs. Alguns dias, como elas, nem vai se despedir de mim no portão. Não fará festa quando eu entrar em casa, mas me gritará para ligar o computador pra você ou para pegar água. De vez em quando até dirá que o papai é pão-duro, brigão, egoísta e outras coisas do gênero. 

Isso dói muito, mas os filhos da gente têm crédito. Mas se você me amar do jeito que eu sou, e de vez em quando me der um pouco de carinho e um sorriso doce, tudo terá valido a pena. E mesmo se você não der, mesmo assim tudo terá valido a pena do mesmo jeito… 

Eu te amo, filha. Papai está esperando. Venha bem. 

Papai.

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