Encontros com o mestre: A tristeza é o mensageiro

“Que lugar bonito, mestre!”

“É verdade… um dia, o bom estará acessível a todos…”

“Será?”

“Sim… mas habitualmente, quando se alcança este ponto, o valor que se dá a essas coisas já não é mais o mesmo…”

“E o que vamos fazer aqui?”

“Sentar na grama e esperar. Um pouco de paz e reflexão sempre faz bem…”

“Humm, humm…”

Neste momento, se aproxima de uma das casas, um carteiro.

Ele chama, chama, e ninguém atendendo, ele segue seu caminho.

“Observou o carteiro?”

“Sim; polido e profissional.”

“Amanhã, ele vem de novo. E se ainda não tiver ninguém em casa, virá no outro dia.”

“E…”

“A tristeza é o mensageiro. É como se fosse o carteiro.”

“E ela continuará vindo até que consiga entregar a mensagem.”

“Somente após aceitar a mensagem, o destinatário poderá fazer movimentos certos. Ou, pelo menos, deveria..”

“É só então a solução fica mais próxima.”

“Ignorar o carteiro não resolve. Ele sempre volta. É o ofício dele.”

“É verdade, mestre. As pessoas tem uma coisa de negação.”

“É um pouco aquela coisa de criança, que pensa que cobrindo a cabeça, o monstro vai embora…”

“É resistência à mudança?”

“Um pouco. Às vezes, é pura e simplesmente medo, mesmo…”

“As pessoas têm medo de perder as coisas. “

“Algumas perdas são lamentáveis. Mas outras, não.”

“Apenas parecem ser ruins, mas é só naquele momento..”

“Algumas coisas, ninguém pode lhe tirar. “

“Especialmente, o que nunca lhe deram. ‘

“E se um dia se teve e agora não tem mais, já tiraram.”

“Ninguém pode tirar o que nunca lhe deu ou o que já tirou de você. “

“Assim, não se deve pensar em perdas em situações como essa.”

Ficamos em silêncio.

“Sabe quem mora naquela casa?”

“Não…”

“É um professor, de uma renomada universidade.”

“Acho que magistério é missão das mais nobres. “

“Mas, deveriam ganhar milhões. Ensinar o óbvio, às vezes, é de lascar…”

Todo mundo tem dias ruins. Até o mestre.

Hoje não era dia de ser aluno.

Era dia de ser amigo.

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Crônicas da vida: Meu pai não viu a pandemia

Meu pai não viu a pandemia. Não como nós.

Ele “viajou” – termo dele – há pouco mais de quatro anos, em março de 2017.

Pandemia era uma palavra no dicionário. Esquecida.

Quando começou, brincávamos.

Alguém espirrava e afastávamos as cadeiras.

Naquele tempo, ainda se podia brincar.

Ninguém imaginava o horror que estava por vir.

E fomos passando, com perdas e sofrimento.

Parentes, amigos e conhecidos morreram.

Eu fiquei internado onze dias. 

E só piorou.

Imagens impactantes.

Falta de recursos.

Erros de avaliação.

Mortes e mais mortes.

E cada número era o amor de alguém.

Tempos difíceis. Muito difíceis.



Tive um sonho ruim, uma noite dessas.

Uma sensação de desorientação e medo.

Deitado, vi primeiro aqueles pés, usando sapatos baratos.

Levantei os olhos e aquele homem apontava para cima.

Lá em cima, o sol, lutando para irromper entre as nuvens.



Meu pai era um brincalhão.

Próximo a passagem, era uma pessoa simplória.

A luz desta vida se apagava ante nossos olhos.

Morreu dormindo. Como acho que morrem os bons.

Mas sempre me lembro do seu peculiar bom humor.

Quando, em tempos nebulosos como esses, eu gravemente dissesse para ele, “ninguém sabe o dia de amanhã, pai”, ele jocosamente diria – “Sexta-feira. Pois hoje é quinta, meu filho.

Meu pai sempre prometeu o sol se o sol saísse.

E nunca me faltou sol.

O calor dele ou a expectativa por ele.

Quando eu não o tinha hoje, eu sabia que um dia ele viria.

Não há  noite que dure para sempre.

Meu pai não viu a pandemia. Não como nós.

Mas tenho a genuína sensação de que agora ele está vendo.

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Encontros com o mestre: silêncio e ausência

“Tempos difíceis, hein, mestre?”

“Sim, são. Para você, para a maioria das pessoas. Coisas grandes estão acontecendo.”

“Grandes quanto?”

“Grandes, muito grandes. Outra hora falamos isso. Por enquanto, vamos nos ater a você.”

“É, alguns dias e situações estão sendo muito difíceis…”

“Trabalhe melhor esse desejo de aprovação. Já falamos sobre isso…”

“Eu sei…”

“Pois é… todos querem a aprovação e a admiração de todos. Isso não é possível.”

“Você não deve querer aprovação de quem faz juízo errado de você sem nem te ouvir.”

“Quem ouve de terceiros ou faz mal juízo sem nem te consultar, conhecer ou querer saber dos fatos, não é alguém que você deve fazer questão de querer perto.”

“Se te causar prejuízo, confronte.”

“Se não, deixe para lá. Se um dia te procurar, acolha.”

“Mas eu não quero aprovação de todos…”

“Quer sim, todos querem. Todos queremos.”

“Eu só ansiava um pouco mais de justiça e equilíbrio…”

“Lembra da história do bom samaritano?”

“Da bíblia? Sei sim.”

“O bom samaritano acudiu o assaltado na descida de Jerusalém.”

“Os doutores, anteriormente, passaram pelo assaltado e o ignoraram.”

“Sim…”

“Mas o que é pouco destacado: o samaritano o acudiu, proveu o primeiro auxílio, encaminhou seu tratamento, mas seguiu em suas obrigações.”

“Você deve auxiliar, mas não precisa parar sua vida nesse mister. “

“As pessoas tem que se curar, prosseguir, crescer, evoluir, enfrentar e vencer.”

“Mas ninguém valoriza as ações e os feitos; parece que nada nunca é suficientemente bom.”

A força do bem X banalidade do mal dos mercenários da OAB | Diário da Manhã“Você só está olhando para um lado, no seu caminho.”

“Às vezes, você tem que dar o silêncio para quem não se importa com suas palavras.”

“Às vezes, você tem que dar a ausência para quem não prestigia a sua presença.”

“Tente ser uma pessoa melhor, já falamos disso.”

“Mas melhor para você mesmo, também. “

“Lembra como era bom andar no banco de trás?”

“Como é?”

“Banco de trás, quando você era criança…”

“Quase não me lembro disso…”

“Eu sei… mas, mesmo que as pessoas não queiram, chega o tempo de passar para o banco da frente.”

“Tomar as rédeas. Cuidar das coisas. Aceitar que nem tudo é bonança.”

“Mas que nem tudo deve ser desgraça, também.”

“Mas as pessoas sendo injustas, como não se incomodar?”

“Verdade, bondade, necessidade. As peneiras, lembra? Certas coisas, é melhor nem saber ou dar ouvido…”

“Para você é fácil, já está em outro patamar…”

“Será? Tem gente que fala mal de mim sem nem acreditar que eu existo…”

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Diário de um mafioso: furadas e seringas

Contexto histórico, em Dezembro/2020

    • Falha na elevatória do Lameirão deixou vários bairros da cidade sem água
    • Prefeito do Rio, em fim de mandato, é preso
    • Um dos colaboradores estava foragido em Belém
    • Ministério da saúde não possui seringas suficientes para vacinação da COVID

…e, Cara de Gato, só me confirme o pagamento do transporte da bomba – ficou acertado que o pagamento do frete seria por tempo, e não por quilômetro.

Ok, chefe… deve dar uma boa renda… demorou um bocado para a bomba chegar no Lameirão…

Já demoraria, mesmo… não fizemos nada para isso ocorrer… fazemos arranjos, mas não sou malvado… o povo estava todo sem água…

Entendi… mas o pessoal do novato já chegou topando isso?

Eles ainda estão entrando no esquema, mas isso já estava acertado desde o tempo do juiz…

Ah, tá. Vou verificar, chefe. E tem mais uma coisa: o Nosferatu tá liberando os pagamentos direitinho, mas ele está com medo de alguma coisa, pois ele mandou o sub-senador para Belém…

O que? Não, não quero… Fala para o TurnOver disparar a operação… manda recolher todo mundo… manda decretar a preventiva, e logo, que a juíza do plantão judiciário vai manter ele preso.

Tá bom, chefe, farei isso.

Sim, vamos logo desmanchar essa bagunça. E fala pro Ligeirinho que estamos fazendo isso para facilitar a transição dele, pois eles iriam zerar as contas fazendo pagamentos indevidos… nós já recebemos, Cara de Gato?

A maior parte, senhor.  Mais de 80%, pelo menos.

Tá bom, tá bom… pois é, fala pro Ligeirinho que fizemos isso para facilitar a transição dele. E não deixa de agradecer de novo pelo ferro da Perimetral; ficou muito barato…

Tá bom, chefe, mas ele não gosta de falar nisso…

Eu sei. É justamente para lembrá-lo da “taxa do eu sei”…

Ok. Algo mais, chefe?

As seringas e agulhas que eu mandei separar já estão entregues para a Secretaria de Saúde?

Já sim… mas ainda temos umas cem milhões no nosso depósito…

Segura… o governo federal vai tentar comprar, via pregão, e vai falhar… está tudo fechado com os distribuidores…

Tá bom, chefe, está tudo bem guardado.

Mas pode começar a preparar os caminhões… este governo é corrupto como os outros, mas é muito mais incompetente… Se tivesse pelo menos um cara de logística no ministério…

Mas, chefe…

É uma brincadeira, Cara de Gato. uma brincadeira. Mas deixe ele lá, um dia vai nos servir para alguma coisa.

Ok, chefe.

Pois é, prepare os caminhões. Se eles não conseguirem viabilizar a compra, você manda simular um “pela porco” na Brasil, e manda abandonar uns dois caminhões, com o máximo que der de seringas e agulhas, dentro da Fiocruz.

O senhor está ficando bom de coração, não é, chefe?

Talvez… mas não deixa ninguém saber. Divulgue que estou preservando o mercado.

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Diário de um mafioso – Memória afetiva

Contexto histórico, novembro/2020:

  • Polícia faz uma megaoperação em Duas Barras, município de 12.000 habitantes
  • Assalto cinematográfico em Criciúma, Santa Catarina
  • Eduardo Paes eleito prefeito do Rio de Janeiro.
  • O centro administrativo do Rio, construído na antiga zona do meretrício, é chamado de “Piranhão”

“Chefe, bom dia.”

“Bom dia, Azul. Antes de abrirmos nossa pauta oficial, quero fazer uma reclamação com você…”

“O que foi, chefe, o que foi?”

“Calma… no final, tudo acabou bem, mas vocês estão usando demais o Google…”

“Não entendo, chefe…”

“Eu mandei gerar uma distração na terra do Martinho, porque eu precisava dar condição para a retirada de uma pessoa de interesse do Pedro Ernesto…”

“Pedro Ernesto? Mas…”

“Pois é! Vocês foram bater em Duas Barras, terra natal do Martinho! A operação era pra ser em Vila Isabel!”

“Puxa, chefe…”

“Tudo bem, acabou dando tudo certo. Outra equipe fez o serviço. E o nosso associado dos postos de gasolina ainda ganhou um extra, abastecendo as viaturas que tiveram que subir a serra, em regime de urgência.”

“Que bom, chefe. Sobre o curso que o senhor mandou dar…”

“Sim, como foi?”

“Um sucesso! O pessoal adorou as técnicas ensinadas! O pessoal das antigas disse que eles não aprendiam nada tão útil desde que eles ficaram presos com os subversivos e aprenderem que estourar carro forte era melhor do que roubar banco…”

“Caramba… coisa dos anos setenta… estavam defasados, mesmo…”

“É… e deu de tudo: estrangeiro, novato, deputado…”

“Pois é… quero ver se aprenderam… mande escolher uma pequena cidade do interior e usar tudo: grande número de veículos, explosivo plástico, armamento pesado, bloqueio das unidades policiais, muito barulho em vários pontos diferentes, etc.”

“Sim, chefe. Direi que é o trabalho de formatura.”

“Que seja. E avise à turma: nenhuma vítima fatal. Nenhuma. E nada de patrimônio pessoal. O alvo tem que ser corporativo, de preferência com tudo segurado.”

“Tudo bem, chefe, tudo bem… E sobre a política?”

“Azul, nós não temos partido. Nós estamos sempre do lado que ganha.”

“Ok. Já estou jogando fora a bíblia e tirando meu chapéu de Zé Pilintra do armário… Alguma orientação?”

“A princípio, deixa ele a vontade… pode fazer o que quiser… derrubar a ciclovia, reformar a ciclovia, o que quiser…”

“Ok, chefe. ficarei de olho.”

“Só não pode uma coisa: mexer no Centro Administrativo.”

“Direi, chefe… mas, posso saber por que?”

“Memória afetiva. Junto com o “Balança mas não cai” e o “Pedregulho”, acho um dos apelidos mais bacanas da cidade…”

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