Crônicas da vida – 15 anos da Glória

Um dia desses, Glória fazia curso de férias na Aliança Francesa e eu fui deixá-la lá pela manhã, antes de ir trabalhar. Deixei-a na porta do curso, observei-a  entrando no prédio e em seguida saí com o carro.

No meu caminho normal, logo a frente faço uma conversão para a esquerda.  Minha opção  natural é olhar o sinal logo mais a frente, para ver se eu vou conseguir alcançá-lo, antes que ele feche. Mas sem razão aparente, neste dia em particular o que me chamou atenção foi uma placa anunciando que determinada clínica radiológica agora fazia “PET Scan” em Belém.

Foto Dia_2012_06_18_Hora_17_43_4610258844Admito para risada geral que em primeiro momento achei que era uma tomografia para cachorros. Ou para animais de estimação em geral. Podem rir a vontade, eu mesmo achei muita graça nisso… depois. Além da minha ignorância médica, acho que como minha cunhada abriu um “pet shop” aqui na cidade, fiquei com a palavra presa na cabeça. Meu cérebro associou PET incondicionalmente com animal de estimação…

Rapaz, o cérebro da gente faz umas associações estranhas… ou é só velhice mesmo…

Na verdade, eu estranhei. Tomografia para animais é um pouco avançado demais para uma cidade com o porte e desenvolvimento de Belém. Mas, tendo quem pague (e aqui tem….) sempre aparece alguém disposto a prover o serviço.

Mas durante o trajeto para meu trabalho, apesar da minha desconfiança, eu ainda tinha em mente a ideia de tomografia para cachorros. Por uma dessas divinas conexões cerebrais, eu me lembrei de um livro lido há muitos anos, um que falava sobre os malefícios do cigarro.

Tenho lembrança de ter lido este livro na casa dos meus avós maternos, Ângelo e Rosália. Cearenses clássicos, retirantes nordestinos radicados no Rio de Janeiro, eles educaram todos os fihos (todos os onze…), mas eles mesmos não tiveram acesso a educação. Lembro disso pois logo nas primeiras páginas do tal livro estava escrito a caneta, com uma caligrafia trêmula “o segaro é peregozo”. Em minha “tradução”, “o cigarro é perigoso”.

Deve ter sido anotação do meu avô. O filho caçula, o único que ainda morava com eles, meu tio Pascoal, era um homem “letrado”, como eles diziam. E era mesmo. Lembro dele ainda com cabelo “black power” (gente, estamos falando da década de 70…) lendo uns livros já antigos (na época) de Madureza Ginasial para arrumar mais exercícios para fazer.

Mas voltando ao livro do cigarro – meu pensamento trouxe-me a ele junto com a ideia da tomografia para cachorro pois um dos textos falava sobre uma senhora que internou-se com as pernas quebradas, pois seus cães se enrolaram em suas pernas e a fizeram cair de uma escada.

Inquirida pelo médico porque ela criava cães ao invés de adotar crianças, visto ser uma senhora de posses, ela conta a história de ter visto, no período pós-guerra, dois irmãos brigarem e um deles esfaquear e matar o outro por uma “guimba” de cigarro.

Eu internalizei essa história, entre várias outras do livro. Felizmente, o lado bom, creio eu. Nunca fumei, e até hoje não sei fumar. Mas sempre quis ter filhos, sempre. Muito antes de pensar em casamento, eu sabia que queria ter filhos.

Andei muito até chegar neles. No meu caso, nelas. Fui pai quando podia criá-las, abrigá-las, alimentá-las e educá-las. Devo deixar a desejar em diversos outros aspectos, mas procuro fazer o melhor que posso neste “trabalho”, como fizeram os que vieram antes de mim.

Apesar das muitas dificuldades que tenho encontrado em minha caminhada (e acredite, não foram poucas…) sempre agradeço a Deus em minhas orações porque acho que minha vida tem dado muito certo. Mesmo com as cacetadas que recebo daqui e dali, acho que começando de onde eu comecei, posso agradecer a Deus por cada progresso alcançado.

O lado profissional é uma dessas vertentes. Embora cada vez menos eu seja um primor de sociabilidade, sempre fiz pelo menos um amigo de verdade em cada lugar que trabalhei e em todos eles tive minha saída lamentada, deixando sempre um rastro de serviço bem feito.

Por conta de um projeto chamado JurisCalc, nos últimos anos eu tenho corrido o Brasil a trabalho. Com direitos a algumas frases curiosas – em Curitiba “diga o que você precisa para sua tarefa; depois do que o Juarez falou de você até o meu lugar se você quiser eu te dou”, em Porto Velho, “cara, você veio resolver definitivamente o problema da nossa seção”; no Rio de Janeiro “você é o Luiz Carlos, do JurisCalc? Espera que tem um monte de gente querendo te conhecer…” e em João Pessoa, uma que fez rir muito “se quiser comprar um apartamento aqui, eu posso te apresentar ao pai da Luiza, que voltou do Canadá”.

A receptividade, o reconhecimento, o bom trato, tudo isso faz bem ao ego, não nego. Mas os prêmios em concursos de qualidade, as portarias de elogio e as notinhas nas Assessorias de Comunicação nunca chegaram ao conhecimento das minhas filhas. Elas sabem apenas que o papai viaja, fica fora uma semana, e como compensação pelo sufoco que ela deixa a mamãe (minha esposa é obrigada a segurar as pontas de tudo em casa…), ele volta cheio de presentes. Pelo menos, na maioria das vezes.

Na verdade, elas nem sabem o que eu faço.

Não tem problema. Eu gosto de reconhecimento, mas já estou rodado demais para saber que ele só costuma chegar quando a gente não tem mais condição de ouvi-lo…

Um dia desses, um colega do trabalho viu minha filha Amanda no supermercado, acompanhada de minha sogra, e perguntou a ela – “você é filha do Luizão ?” Lá no trabalho eu sou o Luizão. Como não sou alto, você imagina que minha barriga tem alguma culpa nessa alcunha…

Mas, retomando o raciocínio: cada vez mais minhas fiilhas vão deixar de ser “as filhas do Luizão”. Cada vez mais elas vão ganhar espaço próprio no mundo.

Hoje a Glória faz quinze anos. Investimos muito na educação destas meninas. Como eu gosto de frases feitas, “investimos naquilo que o ladrão não pode roubar”. Cada vez mais meu brilho individual vai se esvair, minhas vontades e desejos vão passar a ter menos espaço, minhas prioridades vão perder lugar.

Eu aceito isso com naturalidade. Nem sempre com candura e tranquilidade, pois sou  imperfeito, mas aceito como uma coisa natural. Demorei muito para ter minhas filhas, e tive todo o tempo do mundo para exercer minha vaidade, vivenciar meu egoísmo e satisfazer meus interesses. Como Amanda já diz desde bebê, citando Eclesiastes 3:1 – “tudo tem seu tempo determinado”Foto Dia_2012_06_18_Hora_17_43_4610258563

 

Cada vez mais elas vão deixar de ser “a filha do Luizão” e eu vou passar a ser “o pai da Glória”,”o pai da Amanda”, “o pai da Gabriela”. Isso já ocorre. Hoje. E cada vez mais vai ser assim.

O tempo é delas. Cada vez mais o lugar ao sol e nos holofotes será delas. Que Deus me permita fazer com dignidade meu trabalho nos bastidores.

Hoje Glória faz quinze anos. A festa é dela. Merecida. Que ela construa uma vida de realizações, uma estrada de sucesso, uma firmeza ante as dificuldades, uma capacidade de vencer os percalços, uma sábia dignidade de saborear as vitórias e a certeza que a vida é uma experiência que se renova todo dia.

E que ela sempre trilhe o caminho da retidão. Da firmeza de propósitos. Da clareza dos objetivos. Quando a gente faz tudo certo, nem sempre as coisas vão bem. Mas quando se faz tudo errado, não tem como dar certo. E como gosto de frases feitas, segue mais uma, a definição da insanidade – “insanidade é continuar a fazer o que você sempre fez, desejando obter resultados diferentes.”

Feliz aniversário, Glória. Seja grande. Faça as coisas certas, que provavelmente os resultados serão sempre favoráveis. E quando não forem, sua família está aqui atrás, na sombra, para te dar toda ajuda que estiver ao nosso alcance.

Foi o que meu pai me disse, é o que eu acredito, e hoje eu digo para você.

Feliz aniversário. Amo você.

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Crônicas da vida – O relógio da sala e o dente da caçula.

Recentemente, por força de compromissos profissionais, tive que passar uma semana na cidade onde meu pai mora, e aproveitei para ficar hospedado na casa dele. É uma casa simples no subúrbio de uma grande cidade, mas que, pelo menos na ótica deles, satisfaz todas as necessidades de quem já está no entardecer da vida.

Na pequena sala de sua pequena casa, onde tomei meu cafés e jantares durante minha estada, eles tem um relógio enorme pendurado na parede. Visibilidade perfeita, gosto duvidoso e preço seguramente pequeno. No silêncio da manhã, aquele relógio enorme chamou minha atenção. Não pelo barulho, visto que é silencioso, mas pela rapidez com que o ponteiro dos segundos dá um giro no mesmo.

Pensei comigo – “esse relógio deve estar errado, ele gira rápido demais.” Mas, dia após dia, como não tenho relógio de pulso, a conferência entre o enorme relógio e a marcação digital do meu celular, penosamente retirado do bolso da calça, me fez acreditar que o relógio, a despeito dos seus “segundos vorazes”, estava inapelavelmente certo…

Meu pai sempre teve sorte com relógios baratos. Relógios grandes, vistosos, do tipo que nordestino antigamente gostava de usar, de marcas conhecidas, seguramente cópias pois os originais estavam fora do seu poder aquisitivo, funcionaram sem problemas em seu pulso ao longo dos anos.

Mas os mais emblemáticos para mim sempre foram os relógios “do balde”. Nessa fase da vida, eu já tinha condições de comprar meus próprios relógios, e tinha alguns de marcas bem conhecidas, já nem tão baratos assim. Mas toda vez que eu o visitava, com receio que meus relógios “vistosos” chamassem a atenção da malandragem, ele mandava eu ficar andando com dos seus, “do balde”.

Porque do balde? Os relógios eram cópias piratas de um modelo emborrachado japonês, que fez muito sucesso nas décadas de 80 e 90. E eles eram vendidos, no comércio de rua do bairro do meu pai, dentro de um balde. Assim o eram para provar que eram realmente a prova d’água. Você escolhia, tirava do balde, secava e botava no pulso.

Quando era o dia de eu ir embora, ele nunca aceitava o relógio de volta. Sempre mandava eu levar, pois afinal, eram “do balde”… Pois os relógios do balde na maioria das vezes duraram mais que meu relógios de marca; quebravam as pulseiras, visto que eram feitas de borracha vagabunda, mas a “máquina” continuava funcionando, ao longo dos anos…

Mas, voltando ao relógio da sala do meu pai, eu ainda estava intrigado – como é que esse relógio pode estar certo, se ele anda tão rápido? Até que um dia desta semana que estive com ele, algo ocorreu. Por causa do trânsito horrível da cidade onde ele mora, tenho que sair uma hora e meia antes do meu compromisso, pois senão chego atrasado ou não consigo estacionar. Então eu saía da casa dele por volta das 07:30 da manhã, antes da hora que meu pai, com sérias dificuldades de locomoção, já tivesse se posicionado no local onde passa parte das suas manhãs, acomodado em uma cadeira junto ao portão da rua.

Mas lá pelo meio da semana, já um pouco atrasado em relação ao meu horário ideal de saída, pedi a sua benção e me despedi apressadamente, enquanto meu pai ainda estava no banheiro. Eu já estava passando pelo portão quando escutei a voz de minha madrasta vindo lá de dentro da casa – “Carlo, espera que teu pai quer te ver sair.” Como já estava no carro, manobrei para sair e o esperei.

Ele chegou à grade do portão, e com visível dificuldade, se apoiou na mesma. Nos olhamos pelo vidro sem película do carro. Com esforço, tirou uma das mãos da grade, para poder me acenar em despedida. Senti a alegria nos seus olhos, mas também a urgência, pois era visível o quão penoso era aquela situação de equilíbrio instável para ele.

Houve um tempo em que tínhamos, tanto eu como ele, toda a saúde e todo o tempo do mundo. E quantas vezes, na pressa da minha meninice, entrava em casa correndo, sem ao menos lhe pedir a benção. Na adolescência, imerso em minhas próprias expectativas, mal partilhava jantares com ele, passando praticamente reto para o quarto, seja vindo da bola ou da escola. Já como visitante ocasional, em uma vez que cheguei de viagem e saí direto com meus amigos, ele cunhou a frase que virou folclore na minha família – “Pai, não leva a mal, leva a mala…”

E hoje, atesto que o relógio barato da sala do meu pai está certo. Tanto na exatidão das horas como na constatação que o tempo realmente passa rápido. Alonguei ao máximo aqueles segundos no portão, mas ele precisava se sentar e eu precisava ir embora. Na sala, ao fundo, por trás dele, o ponteiro dos segundos do relógio barato do meu pai seguia seu ritmo frenético, não nos deixando esquecer que o tempo realmente passa rápido…

Um dia, um de nós dois não estará mais aqui. E em algum momento do futuro, o outro não estará também. Os homens de minha família costumamos ser longevos, mas não somos eternos. Eu mesmo, já começo a contar o meu tempo: ontem, dia 04 de novembro de 2011, caiu o primeiro dente de leite da minha filha caçula. O sorriso dela hoje já tem uma “janelinha”. Há pouco mais de seis anos, ela nasceu. Ela andou, falou e começou a ler. E agora perdeu o primeiro dente. Nada segura aquele ponteiro dos segundos…

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Crônicas da vida – Minha mãe faria 74 anos

Hoje, dia 16 de fevereiro de 2011, minha mãe faria 74 anos.

Durante muitos anos, deixei esse dia passar sem grandes lembranças. Não foi fácil viver sem ela. Mãe é uma coisa que todo mundo tem. Sempre foi complicado não ter a minha. Ela foi embora cedo demais.

Minha esposa, Márcia, criou um site com a árvore genealógica da família. Foi atrás de informações, conseguiu documentos com minhas irmãs, nomes, datas, e cadastrou tudo. Por conta desse site, hoje de manhã, eu recebi um e-mail: minha mãe faria 74 anos.

Foi muito díficil viver sem ela. Sempre pensei que quando chegasse minha hora, assim que eu chegasse lá e falasse com o responsável (será que “Ele” em pessoa viria falar comigo?) eu iria perguntar porque Ele levou minha mãe tão cedo.

Mãe e PaiMas hoje talvez eu revisse essa pergunta. Muitos anos se passaram, muita coisa aconteceu na vida, me casei, minhas filhas nasceram, muitos conhecimentos foram adquiridos e novas opiniões formadas. Além disso, se “Pedrão” me deixar entrar, é pouco provável que “Ele” esteja lá para me receber… ainda tenho muito chão para andar…

Mas, voltando ao nosso dia-a-dia, hoje, voltando da escola, conversava com minha filha mais velha, Glória. Falávamos sobre um programa da televisão paga, o “Ghost Hunter”, sobre ter medo dessas coisas ou não, sobre nossas “experiências” com fantasmas, como deveríamos proceder, etc.

Acredito em espíritos, e se você quiser chamar algumas manifestações físicas deles de fantasmas, tudo bem. Falamos sobre como seria legal se achassem algo no Centro de Cultura no Rio, pois aí poderíamos visitá-los…

Depois, sozinho fiquei pensando em como seria o encontro com minha mãe. Não quero morrer, tenho uma ótima vida e uma família maravilhosa, mas seria mentira dizer que as vezes não divago sobre isso. Fiquei pensando em como vai ser legal quando eu a vir no paraíso.

Aí me deu um pensamento: e se eu não for para o “paraíso”, para o mesmo lugar onde ela está? E se eu for, mas por algum desígnio de Deus, não me for permitido reconhecê-la? Será que eu saberei o nome dela, quando a encontrar no paraíso?

Se eu for merecedor, Deus me dará esta graça, de encontrá-la de novo. Mas Deus me fez pensar que, ao invés de ficar sonhando agora com este futuro, que eu seja grato e feliz pelo que a gente pode desfrutar no passado. Mesmo que pouco, foi intenso. Sincero. Amoroso. Feliz aniversário, mãe!

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Crônicas da vida – Comentários na véspera do Cí­rio 2007

Minhas filhas são maravilhosas. Provavelmente as suas também são especiais e únicas, mas as minhas são minhas e isto as coloca em permanente vantagem sobre qualquer outra. Tenho certeza que você entende isso perfeitamente. A menos que você não tenha filhos ainda, e viva achando que é a mesma coisa amar um sobrinho ou uma criança carente que você resolveu apoiar. Critique, se quiser, mas ponha crédito na minha afirmação: tive minha primeira filha já com quase 35 anos, e de um jeito ou de outro (sobrinhos, filhos de amigos, etc.) tive diversos contatos com crianças antes das minhas. Nesse momento estou vendo uma das “obras” das meninas. Nem sei que qual foi, mas pelo tipo de traço, deve ter sido da Gabriela, que está com pouco mais dois anos. Gabi é magrinha, e se seguir a linha dos primos cariocas, que foram crianças magrinhas que “esticaram” muito depois, vai crescer muito, mais hoje minha Gabi é pequena e magrinha.

A arte que eu vejo é na parede atrás da mesa do computador onde estou. Sim, minha parede outrora pintada de branco gelo agora tem traços que devem ser impressionistas, pois me impressiona como ela conseguiu escrever ali! Não cabe uma perna minha naquele espaço, nem a Gabi, por menor que ela ainda seja hoje. Como essa miúda chegou lá? Mas chegou… e riscou!!! Morreu Paulo Autran. Que sua chegada no seu destino seja de muita paz, e que aqueles que o amam estejam lá para acolhê-lo. Nunca assisti Paulo Autran no teatro. Diversas vezes, em curtas passagens de férias ou trabalho no Rio, lia sobre peças suas no caderno de cultura do O Globo, mas nunca fui. Adoro filmes e livros, mas nunca fui amante do teatro. Sou de uma época em que o Bussunda apresentava o “Cabeça Feita” na TVE e o Planeta Diário era um jornalzinho underground, onde a gente podia comprar umas camisetas escritas em letras grandes “Vá ao teatro” e em letras miúdas “… mas não me convide”. Os anos 80 foram um barato… o fim da ditadura permitiu a eclosão de coisas que nunca mais se repetirão…

Hoje vou ao teatro, por causa das meninas. O Teatro da Paz, um belí­ssimo teatro com uma acústica única (li isso dito por alguém que entende, e repito aqui…), tem sido palco das apresentações de dança delas. Vou meio a contragosto, pois são meses de ensaio, dinheiro gasto com roupas, maquiagem em cada dia que há apresentação, e ainda tenho que pagar o ingresso para ver minhas filhas dançarem três minutos!!! O resto do tempo são as professoras que não conseguiriam encher um teatro para serem assistidas, e uns dançarinos convidados vestidos de Peter Pan (aquelas malhas coladas não parecem o figurino da Terra do Nunca ?), dançando conforme o tema do espetáculo, até o final do mesmo… A outra arte de uma das meninas está na porta do meu armário. É da Amanda, com certeza. Está até assinado. Quando a gente é solteiro e sem filhos, se gasta um dinheirão personalizando suas coisas: viaja pro Nordeste e traz chaveiros com seu rosto na frente de um monumento; grava seu nome em canetas cuja comissão da venda garante o jantar do vendedor, embora ele nem consiga pronunciar corretamente o nome da mesma; ou paga regiamente um artesão de rua para ele gravar em madeira algo do tipo “Casa do Fulano. Bem vindo os homens de bem e os canalhas também…”, placa esta que lá pela terceira mudança ou terceira década de vida se conclui que é melhor jogar fora… Isso sem falar nas latinhas de cerveja personalizadas, que de tanto guardar, “chocaram” e tiveram que ser jogadas fora. Pois agora, custando somente o amor da minha garotinha, o meu armário está personalizado pela arte da minha filha.

Minha primeira reação foi de lamentar a “pichação” do guarda-roupa que ainda nem pagamos, ainda mais eu, que, menino pobre, sempre fiz minhas coisas durarem acima do normal, afinal nunca sabia quando poderia ter outro. Meus brinquedos, alguns muito bons, presentes dos meus tios ricos por parte de mãe, acabaram ficando para meu sobrinho mais velho, Andinho (hoje já um cidadão de 27 anos e 1,90…), que, como toda criança deve fazer com seus brinquedos, acabou com todos eles brincando… Pois é como disse, fiquei meio “assim” quando vi a arte, mas depois sorri. Como é bom ter alguém que faz isso pra gente… As artes da Glória estão espalhadas pela casa. Desenhos, pintura, gesso e dobraduras em papel. Os desenhos em papel consomem todas as folhas A4 que compramos. E como artistas chiques, tem seus repentes: nenhuma delas gosta de papel “sujo”, já escrito de um lado. Tem que ser novo. Antes eu comprava daquele papel mais caro, agora só esses “Jandainha” da vida, que cumprem muito bem seu papel…de papel!!! Na parte musical, existem trechos que já foram ensaiados no piano tantas vezes que já estou eu quase para sentar e tocar… Fora as artes da cozinha… Mas não vou nem alongar nisso, pois está quase na hora do lanche, é melhor não pensar em comida agora para não arrebentar…

A arte da minha esposa? Como não quero gerar inveja e atrair olho gordo, ficarei com apenas um talento da minha esposa: gerar essas meninas. Quanto aos outros, sou discreto e egoísta, vou literalmente guardar pra mim. Eu? Eu sou um espectador privilegiado… Pois é, hoje é véspera de Cí­rio. Nossa Senhora de Nazaré já passou de barco aqui na Baí­a de Guajará, pertinho de minha casa, os fogos já se estouraram, os helicópteros da televisão já se foram, tudo pronto para a Trasladação mais a noite e para a grande procissão amanhã. Com direito, por mais humilde que seja a famí­lia, a um almoço de Cí­rio amanhã. Seja um patarrão ou um franguinho, mas sempre tem algo no tucupi. Para quem não sabe o que é Cí­rio, procure no Google ou veja no Jornal Nacional de sábado 13 de outubro. Belém só aparece no JN no Círio ou quando alguém mata uma freira americana por aqui… Uma dica: o Círio é a festa da família paraense. Aqui o clima é tórrido, temos deficiências de saúde pública e temos décadas de atraso social e urbano para tirar, mas pelo menos, temos dois Natais!!! Bom Cí­rio 2007 pra vocês!!!

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Crônicas da vida – De repente 30. E 40,50…

Sábado próximo passado, 27 de janeiro de 2007, eu, minha esposa e minha filha Amanda estávamos no shopping Iguatemi, comprando um guarda-roupa para nossa casa. Enquanto minha esposa acertava detalhes finais junto a vendedora, levei Amanda para o parquinho indoor que tem no shopping. Ela sempre quer ir, impressionante. As vezes estou cansado, apressado ou algum daquelas dezenas de ‘ados que usamos para negar esses pedidos, mas acabo sempre levando. E vendo-a brincar na “xí­cara”, pensei que tenho que levar sempre que posso. Aquele brinquedo sem sentido, girando no próprio eixo e dando voltas, e uma alegria tão grande no rosto da criança. Amanda é grande, já lê, mas tem apenas cinco anos. Faz seis agora dia 20 de fevereiro. Pensei que, de repente, sem que a gente nem note, um dia aquilo não vai mais ter graça pra ela. Não vai mais pedir pra ir. Não vai mais sorrir por estar girando. Não vai por a mão pra fora para bater na minha, no giro do brinquedo. De repente, 10 anos. De repente 20,30,40… Como no filme da protagonista do série Alias, De Repente 30, onde uma mocinha de repente acorda com 30 anos. Eu sei, Tom Hanks já fez isso antes, mas quando se é pai de meninas sempre faz mais sentido com uma atriz… se é que uma estória dessa pode fazer sentido… Deixa minha garotinha ser criança enquanto ela quiser ser, pois de repente um dia… pum, acabou! Vou procurar não inibi-la nem adiantá-la. Meu Deus, nada tão bom como ser criança. Lembrei de mim, olhando minha filha.

Quando menino, eu era goleiro, e dos bons, e como ninguém gosta de jogar no gol, sempre tive colegas mais velhos, pois eu sempre participava dos jogos com eles. Mas eu era um menino ainda… Determinada vez, estava brincando de bang-bang, com meus colegas da mesma faixa de idade (Valter, Ricardo, Darlan…). Dentro dos nossos limites de posses, caracterizados, com coldre amarrado na coxa, alguns até com chapéu, dando tiros com a boca e nos protegendo atrás das amendoeiras. Ao passar do lado do campo, fui tão “zoado” pelos meus colegas maiores que fiquei sem graça. Continuei brincando, mas fiquei achando se eu não estava grande demais para aquilo. Não estava, mas fiquei encucado… Sabe Deus o que eu me adiantei sem necessidade… Agora, tenho quarenta, e qualquer fantasia que não seja de Papai Noel para divertir minhas filhas, é tão inadequado quanto essas calças de cintura baixa usado por balzaquianas, ignorando tudo o que Sir Isaac Newton nos ensinou sobre a lei da gravidade…

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