Crônicas da vida – O ser humano, esse eterno insatisfeito…

Glória, minha filha mais velha, gosta de cozinhar. É tudo que eu precisava na vida: ser gordo, velho, sedentário, diabético e ter uma filha que gosta de cozinhar. Ela faz pizza, biscoitos, bolinhos, sorvetes, gelatinas e coisas afins. Enquanto os pais em geral tem problemas com seus filhos no uso da internet, no histórico de navegação dela é panelinha.com.br, tudogostoso.uol.com.br e congêneres. Sim, eu olho o histórico de vez em quando… Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, já dizia vovó. A arte mais recente dela é um “sorvete de danoninho”, servido em palitinho de dente. Sim, a porção é modesta, mas depois do décimo sexto palito começa a pesar… Mas como aqui em Belém faz um calor danado, não deu tempo de comer todos os que ela trouxe, antes que eles derretessem. Salvo pelo clima, já que o bom senso foi pras cucuias…

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Crônicas da vida – A primeira frase de Gabriela

Estávamos indo para uma consulta regular com a pediatra das crianças, mas antes paramos para pegar o resultado de uns exames da Glória. Sendo uma dessas tardes muito quentes do verão paraense, deixei o ar condicionado do carro ligado com minha esposa e as meninas, enquanto eu desci sozinho, para pegar o resultado. Quando voltei, minha esposa empolgada me contou que minha Gabizita formulou sua primeira frase – “Cadê papai ?”. Pai babão, fiquei todo alegre com a fluência verborrágica de minha caçulinha… Que Deus permita que eu e minha esposa, minha companheira e base de nossa bela famí­lia, sempre estejamos ao alcance de nossas filhas, em todas as necessidades que elas possam ter, e mesmo naquelas inevitáveis situações de vida onde nem os pais podem prover solução, que possamos sempre prover alento, apoio e compreensão. “Papai está aqui, minha caçulita…”

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Crônicas da vida – Dia dos Pais de 2006

Tenho três filhas. Por enquanto, só. Durante o ano inteiro são os trabalhos da escola, leva e traz do balé, ensaio do espetáculo, passeios na praça, idas ao shopping, milk shake no aeroporto. Mas no dia dos pais eu tenho um retorno que vem se somar a convivência diária com elas: meus presentes. Tudo bem que quem banca ainda somos eu e minha esposa, mas já estamos plantando o hábito de presentear os ascendentes. Já me vejo em alguns anos, todas formadas e com bons empregos vindo a nossa casa e deixando embalados uma filmadora, um home theather e um notebook… Mas por enquanto, como disse, quem banca somos nós. E fomos, eu e minha esposa numa grande loja de departamentos de Belém, comprar umas roupas. O vendedor nos indicou uma seção onde tinha “tamanhos especiais”. Pensei – “tamanho mastodonte, tamanho mamute…”. Chegamos lá e minha esposa pegou uma bermuda “M”. Incrédulo, fui ao provador. Coube. Compramos umas quatro peças. Afinal, você imagina há quantos anos não visto uma roupa “M” ?

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Crônicas da vida – Os vendedores e o avanço da tecnologia

Eu e minha esposa fomos almoçar no shopping. Passamos em frente ao stand de vendas de uma marca de artefatos para exercí­cio doméstico. Temos em nossa casa uma esteira elétrica, que para minha esposa sempre foi extremamente útil para seus exercí­cios na segurança de nosso lar. Pra mim, foi o cabide mais caro que já comprei… Mas voltando ao stand, fomos conversar com o vendedor. A esteira atual que ele ofereceu faz tudo, é inteligente, programável, só falta fritar ovo. Quando minha esposa ponderou sobre fazermos uma negociação envolvendo a velha, que afinal ainda funciona bem, ele foi logo dizendo “vai ser difí­cil, essa sua não tem amortecedor, a inclinação dela não zera, o painel só tem as funções básicas, etc, etc.etc.”. Impressionante como a esteira que era exatamente o que minha famí­lia precisava, em quatro anos já não serve nem como moeda de troca. E ainda descobri, depois que quatro anos, que ela “estoura” meu joelho…

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Crônicas da vida – O poço e a paciência

            Ele estava numa casa, e era intensa a agitação em torno dele. Era algum tipo de reunião, com muitas pessoas chegando a todo momento. Muitos deles eram seus conhecidos, embora suas feições não fossem exatamente da mesma forma que ele estava habituado a vê-los. 

            Embora houvesse um clima de alegria, ele via nas cores das pessoas que nem toda aquela alegria era verdadeira. Muitos estavam envolvidos por problemas, mas aproveitavam aquele momento de relaxamento para tentar espairecer. Tentavam passar para os outros uma aura de realização e sucesso. 

            Um amigo dele, acompanhado da esposa dele, que era ela embora não fosse, saiu preocupado buscando a mãe, que era esperada mas não aparecia. Saiu apressado, esbaforido, nervoso. Assim que dobrou a esquina ela surgiu pela sala. Por vezes, quem mais procuramos está na nossa frente e não conseguimos ver. 

            Ele estava numa sala pequena, tipo um daqueles “quarto de bagulhos”, repleto de coisas, e uma delas era um pequeno estandarte, repleto de uns símbolos estranhos, algumas palavras em línguas estrangeiras e uns desenhos de figuras aladas. Achando bonito, ficou manuseando, embora não entendesse o que aquela pequena flâmula poderia querer dizer. 

            Logo em seguida, praticamente todos na casa, muito bem arrumados e perfumados, se aprontavam pra sair, e ele notou que estavam deixando pra trás um jovem, com evidente sinais de retardamento mental. Ele ficou confuso, meio atordoado, com aquela atitude coletiva. Ele estava ali se imaginando um convidado como os outros, mas viu que não poderia abandonar o local, deixando o rapaz sozinho. 

            Um amigo ficou com ele, mas a revolta tomou o seu peito, pela atitude desumana dos outros convidados. Como podiam fazer isso? Ele devia ser parente de alguém, afinal não apareceu ali do nada! Mas todos saíram, perfumados e alinhados, para se divertir. Ninguém se importava com quem deixou pra trás. 

            Enquanto ele ruminava essa raiva, outra pessoa apareceu. Não sabia de onde veio nem quem era, mas era mais um que não parecia ser quem era. Era mais jovem que ele, e ele o convidou a ir aos fundos da casa. E foram. 

            O outro disse “estou aqui para te mostrar o que você não entendeu, já que ainda parece ser cedo para que você consiga ver o que você olha”. O outro o levou até um poço e deu a ele uma cacimba e disse que era para ele tirar um pouco d’água. Ele o olhava enviesado, ainda ruminando a raiva, mas o outro insistiu “tire”. 

            E ele o fez. “Agora jogue no chão”. E ele o fez. “Quando você tirou, você acha que a água do poço poderia acabar? Claro que não, ela se refaz. Assim deve ser sua paciência. Use-a a vontade, e ela sempre estará num nível compatível com suas necessidades.” 

            “E quando você jogou no chão, você acha que ela se perdeu? Claro que não, ela foi absorvida e vai ser útil para alguém. Tanto o exercício da paciência pode enriquecer sua própria fonte, como servir para gerar novos focos dela em outros poços, hoje aparentemente secos.” 

            E sem dar nomes, o outro foi discorrendo sobre os problemas daqueles que saíram ricamente vestidos. Coisas inimagináveis, guardadas no seio da privacidade. Experiências difíceis, mas úteis ao crescimento. O outro disse “A vida é um aprendizado. Círculos paralelos no tempo. A sombra de um provoca consequências no outro. Recebemos o que fizemos, o que é justo. E não esqueça: quando sentir a sede que vem da injustiça, use o poço.” 

            Dito isto, o outro foi embora. Enquanto se afastava, ele ficou olhando, e teve a impressão de que algo estava mudando. Os cabelos do outro embranqueceram. A mão esquerda tremia levemente. Andava arrastado, usando sapatos baratos. Quilos adicionais se juntaram a cintura antes esguia. Puxa, agora parecia tanto com o pai dele…

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