Encontros com o mestre – justiça e importância é um conceito relativo…

“Onde iremos hoje ?”, perguntou ao mestre.

O mestre sentou no chão, fez um gesto para que eu fizesse o mesmo e disse: Hoje, vamos apenas… lembrar. As vezes, muito do que precisamos já está conosco, ou simplesmente, já foi entregue em nossa porta.

Lembra daquela história da viagem de ônibus, que você tantas vezes contou para um monte de gente, não raro arrancando muitas gargalhadas ?

Lembro, foi a primeira vez que eu vi alguém literalmente “sumir na poeira”…

É verdade, – disse o mestre – as pessoas sempre riram muito, mas você realmente lembra dos detalhes daquela viagem ?

Como história para contar, era ótima, mas a viagem foi realmente um inferno… perdemos o ônibus e não sabíamos o horário do próximo, ficamos na rua a noite toda esperando… o cansaço era tanto, que dormimos no chão, mas com um de nós sempre acordado, para não levarem nossas coisas… uma alma preocupada foi cutucar o amigo que dormia, e ele foi rude, pois estava sonolento… tivemos que correr e apaziguar, pois achei que até polícia iria dar nesta hora… no ônibus, o papel higiênico caiu da mochila e saiu rolando pelo corredor, e todo mundo ficou rindo da gente…

Na rodoviária não havia mais passagens disponíveis, e tivemos que ir em um ônibus mais simples, que trafegava por rotas muito mais longas… no ônibus, tinha porco, galinha, até pato… uma pessoa carregava farinha e o saco rasgou… meu amigo ficou branco como um fantasma… estradas de chão, uma poeira danada, um calor miserável, uma viagem que não acabava…

Quando chegamos na cidade, ainda mais de hora por caminhar… carregados de mochilas e mantimentos… sem um almoço decente e um banho há várias horas… um sol de rachar pedra… paramos onde as vacas bebiam água, que era a única coisa com telhado no caminho… um cheiro de merda de dar dor de cabeça… atravessando um campo, um sapo do tamanho de uma bola de futebol nos deu um susto… pensamos em pegar uns limões em uma plantação, mas algo que parecia uma cobra nos desanimou…

É, – disse o mestre – não foi a melhor viagem de sua vida. Mas você lembra o que você pensou quando chegou ao destino ?

Que aqueles morros pareciam uma grande pintura envolvendo a gente e que não se via sequer torre de transmissão.

O lugar era bonito, não ? – perguntou o mestre.

Se era ! O rio descia suave, límpido, entre as pedras. As árvores vergavam sobre o rio, dando sombra, mas o sol era brando e generoso. O pôr do sol entre as montanhas, que de tão altas, fazia com que ele ocorresse cedo demais, e era um espetáculo. E a noite, meu Deus ! Tantas estrelas e tão baixas que parecia que dava para pegá-las com as mãos !!!

Então disse o mestre – Era só isso que eu queria que você lembrasse: que o caminho por vezes é duro, mas que o destino pode ser maravilhoso.

Mas não foi tudo só alegria…

Não, não foi. Nunca é. – disse o mestre.

Lá, furtaram nossos tênis.

Ali, você viu um tipo de maldade: fazer a alguém o que você não quer que façam a você.

Mas um dos meus amigos, que tinha emprego, comprou sandálias iguais, simples mas aceitáveis, para todos nós, antes de pegarmos o ônibus de volta.

Ali, você viu um tipo de justiça: prover aos próximos nada menos do que você aceita para si mesmo.

E ainda teve aquele senhor, que aceitou nos vender a passagem dele, mesmo ficando para ir mais tarde – só havia duas vagas, e nós éramos três.

Ali você viu um tipo de altruísmo: fazer por alguém o que você gostaria que um dia fizessem por você.

Parte da regra fundamental do maior ser que já pisou neste planeta é bem básica: trate o próximo como você gostaria de ser tratado. Simples assim.

Mas as vezes é tão difícil, mestre… parece que a justiça nunca chega… que tudo que se faz é pouco, e não devidamente reconhecido… que gente que merece menos recebe mais da vida… que a luta não dá todo o resultado esperado, e por vezes parece nem valer a pena… que os ganhos não compensam as perdas…

Não se iluda: a única vida que você realmente conhece, é a sua. Talvez conheça um pouco da vida das pessoas realmente mais próximas, e só. 

Não se esqueça que, da vida da maioria das pessoas, vê-se apenas o que elas querem mostrar. Raras pessoas ocultam as virtudes. A maioria, esconde as mazelas… 

Mas, independente disso, não é pretensão sua querer julgar quem merece mais ou menos? E você não está sendo exigente demais, com tanta coisa boa que já aconteceu na sua vida?

Deus sabe do que você precisa antes de você. A vida as vezes é difícil ? É, mas, de certa forma, você combinou isso com Ele. Você achou que daria conta disso, e Ele acreditou. E continua acreditando.

É difícil, mas não desista. A viagem pode ser penosa, cheia de percalços, mas o destino pode ser maravilhoso.

As vezes, aquele telhadinho fedorento no meio do caminho é tudo o que você realmente precisa. Ou você se julga muito melhor do que aquelas vacas?

Franziu o cenho e olhou surpreso, quase aborrecido, para o mestre – mas ele ria, em estrondosa gargalhada.

Então lembrou que na passagem mais recente dele, onde ele viveu, as vacas eram sagradas… Esse mestre…

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